Manifesto de um ateu de religião


“A religião é o suspiro da criança acabrunhada, o coração de um mundo sem coração, assim como também o espírito de uma época sem espírito. Ela é o ópio do povo.” (Karl Marx)

Ultimamente tenho pensado muito sobre essa palavra: religião. Aliás, desde quando tive a compreensão de mim mesmo como humano consciente e pensante, a religião sempre encontrou em mim motivo de severas reflexões. Fazer o quê quanto as minhas reflexões? Quem me dera fosse aquele ser que prefere não pensar profundamente sobre as questões fundamentais dessa vida, mas que deixa ser levado pela leveza encantadora do senso comum, da normalidade e da tradição tão bem construída e fixada. Pobre de mim que não se satisfaz com o “óbvio”, com o que se pôs e se estabeleceu, e assim “é” e ponto final. Mas quanto mais luto contra esse desejo que arde dentro de mim de busca por uma “verdade” e prefiro me entregar ao senso comum (pois isso me parece mais conveniente), mais me sinto aguilhoado por esses “ferrões” espirituais que me tiram o sono. Fazer o quê? Correr não adianta, pois aonde vou vai comigo essa insatisfação com o que está “estabelecido”. Foi assim que aconteceu quando comecei meus questionamentos em relação à maior obra-prima já erguida pelo coração humano: a religião.

A religião sempre fez parte de minha vida. Os assuntos religiosos sempre me foram muito pertinentes. Às vezes posso estar desligado do mundo e tudo o mais ao meu redor, mas quando ouço comentários que envolvam a religião, me ligo ao mundo e fico-me como um grande curioso a prestar atenção aos comentários alheios. Hoje sei exatamente porque isso se sucedia a mim. Confundia gravemente minha curiosidade quanto à religião com a busca do divino. Tudo o que parecia divino era-me fascinante, fantástico, capaz de me excitar e mover-me o espírito. Lembro-me do meu fervor católico e meu desejo de ser padre. Lembro-me da minha curiosidade quanto ao espiritismo, frustrada depois de ouvir uma palestra sobre a origem do sofrimento humano. Lembro-me de minha fascinação pelo místico, pelo oculto e por toda a religião que se arroga no direito de explicar meus questionamentos interiores. Lembro-me (e isso me é tão recente) de minha devoção evangélica que me tirou do mundo e do convívio dos pseudo-apelidados ímpios. Mas vamos lá, vamos direto ao assunto. Essas lembranças só me fazem refletir o quanto à religião foi importante pra mim e ao mesmo tempo foi pra mim uma grande e admirável torturadora. Deve ser por isso que reconheci aqui por momentânea inspiração, que a religião é “a maior obra-prima já erguida pelo coração humano”, lembram? Depois que o homem comeu da “árvore do conhecimento do bem e do mal”, a semente desse fruto se enraizou bem no profundo de seu âmago. Sendo assim, tudo o que o ser humano cria (diferente de Deus que Crea), tudo o que expeli, tudo o que exterioriza tem conseqüências de “bem e mal”. Por isso e tão somente por isso a religião ser tão “boa e má” ao mesmo tempo.

 Partiremos do princípio então. Chega de delongas. Etimologicamente religião vem do latim “religare”. A expressão denota o desejo de religação do homem ao divino, entendido assim na metáfora do Gênesis, onde o homem se desliga de Deus sendo expulso do paraíso. O homem entende que precisa se religar novamente ao divino e assim providencia a religião. Engraçado que analisando a religião nos dias atuais como elo de ligação, de unidade, vemos o quão equivocado seu significado possa parecer. Contemporaneamente a religião tem sido a maior divisora da humanidade. Vide as “guerras santas” religiosas do islamismo, vide os conflitos entre católicos e protestantes, e também as muitas denominações evangélicas “nascentes” e “tradicionais” em nosso País, reforçando a ideia de divisão e não de religação e ajustamento.

Quando digo que a religião é a “maior obra-prima já erguida pelo coração humano”, estou tão certo disso como estou certo de que sou diferente dos animais. Deus não tem nada a ver com a religião. Deus apenas permite (acredito eu) sua existência para que um dia o homem se conscientize de suas criações impotentes e se volte para o que é perfeito e não possui o germe do bem e do mal. Deus (acredito eu) está além do bem e do mal, da lei da causa e efeito e de tudo o que é humano (apesar de Deus ter uma humanidade profunda). As escrituras contam um relato muito interessante. Dizem elas que quando o povo de Israel estava em crise por causa de guerras e muitas perseguições, trataram logo de recorrer a um profeta exigindo um rei que governasse sobre eles. As escrituras dizem que Deus não aprovou a atitude do povo, mas permitiu em respeito às escolhas humanas. Saul foi o rei e seu reinado fez florescer o germe do “bem e do mal”. Como se diz na pretensa Teologia, ali nesse episódio aconteceu não “à vontade decretiva de Deus”, mas a sua “vontade permissiva”. O homem sempre precisou de suas “criações” (não é a toa que a tentação do éden era achar que seria Deus) para “sobreviver”, para se sentir “seguro” e dono de si mesmo. É essa força motivadora que o levou a criar a Lei, o Estado, a Nação, o Direito, a O.N.U., a Instituição (seja ela qual for). Sim, é claro que reconheço o “bem” para a humanidade que essas abstrações trazem, mas também não posso deixar de reconhecer o mal. Elas trazem ao mesmo tempo a força da unidade, da ligação, misturada com a divisão, com a segregação e toda a força da separação. Analise-as particularmente e verás se minto. Deus possivelmente permite as criações humanas e suas tentativas de ligação, ajustamento e segurança a priori, para que frustrando-se, o homem saiba a posteriori que apesar do germe do “bem e do mal” em seu coração, há também nele a semente do espírito que Deus soprou com o poder de o aperfeiçoar em sua imagem e semelhança. Brincar de Deus criando é fantástico, maravilhoso, fenomenal, mas extremamente frustrante, impotente, improdutivo quando se vê o resultado final. Enfim, que o próprio homem reconheça isso por si só e se volte para o verdadeiro Creador. Mas voltemos a nossa questão chave: a religião.

O maior problema que enfrentamos quando analisamos a religião, é o fato de que a religião não existe. Mas você vai me perguntar: como assim a religião não existe? Não se pode pegar com as mãos a tal da religião, pode? A religião faz parte de projeção de nosso inconsciente coletivo, ela não tem vida própria, nós seres humanos é que a alimentamos e a damos “vida”. A religião é uma grande abstração, não é concreta, não é palpável, não é homem e nem mulher. Pode ser que seja um espírito (segundo alguns filósofos que entendiam espírito como projeção de ideias). Mas um espírito com germe de “bem e de mal” de onde provem? Deixo essas especulações metafísicas para serem respondidas “Naquele grande Dia” como diz nas escrituras. A religião é fruto de um coração sedento do divino que se volta pra fora nessa procura, ao invés de voltar-se pra dentro, no lugar onde Deus escreveu a sua “lei”, a sua “religação”. É no espírito humano que se encontra o divino e não em suas concreções.

A teoria junguiana das sombras é a mais perfeita para explicarmos “a maior obra-prima já erguida pelo coração humano”. Segundo Carl Gustav Jung (psiquiatra) o ser humano possui sombras (pecados para os cristãos) em seu ser que só são reconhecidas como estando lá por meio da luz. O Mestre já sabia disso, pois foi Jesus mesmo quem disse que é “do coração do homem que procede toda sorte de iniquidades…”. Mas o homem pecador não sabe disso e para aliviar um pouco a dor de conviver com suas sombras, ao invés de buscar luz, prefere colocar a culpa sobre o “bode expiatório” (alusão a uma passagem de Levítico) achando que esse levará suas sombras. A religião tem sido para alguns o grande bode expiatório, assim como o Estado, a Política, A Sociedade e todas essas abstrações. Mas como culpar algo que não existe (pelo menos concretamente)? Estamos passando por um período de grande crise financeira mundial e dizemos: o grande culpado é a Nação americana. Mas a Nação é feita de pessoas, ou melhor, as pessoas é que criaram a Nação. Ninguém diz: a crise é culpa do homem, é reflexo de nossa própria sombra, é consequência do meu pecado. Porquê? Porque é mais cômodo projetar nossas sombras a algo metafísico, inexistente concretamente do que reconhecer nossas fraquezas. A religião coitada, não pode levar as nossas sombras porque ela não existe. A não ser como um espírito religioso que está no coração humano que insiste em dar de comer a um espírito maior, fruto de projeção de todas as sombras humanas.

Para mim hoje depois de todos os meus questionamentos, a questão da religião já está mais do que resolvida em meu coração. Ela não existe, a não ser em meu coração pecador e religioso. Nunca mais vou alimentá-la e dá-lhe “vida”(se Deus me der essa graça). Aos que me conheceram católico e se orgulhavam de “minha opção”, perdão. Aos que me queriam ver seguir o evangelho segundo Allan Kardec, perdão. Aos que esperavam de mim um mago, um guru ou um sacerdote, perdão. Aos que me viram evangélico e defensor ferrenho da “verdade” que descobri, perdão. Oficialmente por meio desse manifesto, declaro não ter vínculo nenhum com a religião, seja ela qual for e de qualquer natureza. Aqueles que tem ouvidos para ouvir ouçam e sei que me entenderão. Mas aqueles que não forem humildes para reconhecerem suas próprias sombras por estarem admirados com “a maior obra-prima já erguida pelo coração humano”, certamente me repudiarão, me perseguirão e me apedrejarão. Mas tão certo como Cristo vive em meu coração, estou também dessa decisão. No mais, estou aberto a pensamentos discordantes.

Anderson Luiz

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