Sobre a questão do mal


“Não penses mal dos que procedem mal; pensa somente que estão equivocados.” (Sócrates)

Madrugada, não consigo dormir. Vou escrever para ver se o sono chega enquanto os pensamentos rondam minha mente acerca do “mal”. Muito se tem falado sobre existir um “mal necessário”. Será que é mesmo necessária à existência do mal ou sua existência é mera ilusão? Se existe um mal ele é realmente necessário? Creio que não! Acho que o termo “mal necessário” é um engodo, uma falácia para a justificação do próprio. Se existe um “mal necessário”, acho que a sua terminologia só caberia nas questões relacionadas aos fenômenos da natureza. Exemplos: a abelha quando vai se proteger ou proteger outras abelhas e pica quando se sente ameaçada, deixa seus órgãos ir junto ao ferrão e depois morre; a cadeia alimentar desde os leões até aos tubarões; a ostra que quanto mais machucada e arranhada faz com que venha surgir uma linda madre-pérola; as dores de uma parturiente; a menina que sangra como sinal de sua entrada na puberdade… Esses e outros exemplos podem ser o tal fenômeno do “mal necessário”. Mas dizer que na vida humana, nas obras do homem existe um tal “mal necessário” acho até perigoso. A exemplo disso que afirmo vou relatar um pouco a questão dos judeus e seus sofrimentos. Bom, todo o historiador sabe que por causa do holocausto promovido por Adolf Hitler e Cia., a questão judaica em relação à criação de um Estado para os judeus foi facilmente resolvida. Antes do holocausto os judeus eram peregrinos em terra estrangeira e não tinham um Estado em decorrência da dispersão a qual foram submetidos. As nações não aprovavam a criação de um Estado judeu e isso só veio a ocorrer depois do holocausto onde milhares de judeus foram mortos nos campos de concentração nazista. Calcula-se que mais de 6 milhões de judeus morreram nesses campos. Diante desse fato, foi o holocausto um “mal necessário”? Se alegarmos que sim vamos estar justificando um ato criminoso e monstruoso como foi o holocausto. O holocausto foi um mal sem sombra de dúvidas, mas se foi necessário ai já é outra questão. O holocausto pode ter ocorrido por causa da dureza do coração humano e poderia ter sido evitado se os judeus estivessem em sua terra. Não era necessário que ele acontecesse.

Uma outra questão que me veio à mente foi: se necessário é uma palavra que indica algo sem o qual não possa passar, e se o mal de fato existe, não seria correto usar a terminologia de “mal temporário” ao invés de “mal necessário”? “Mal temporário” indica algo perene, passageiro, que se esvai e desaparece como uma ilusão quando é desmascarada. Assim como o tempo é uma ilusão frente ao eterno, o mal pode ser uma ilusão frente ao fluxo da Vida. Para os espíritos elevados à vida humana esta impregnada de “males temporários”. A Lei, a Religião, o Estado, os Sistemas, as Nações, são exemplos desses males que um dia irão dar lugar a algo mais nobre e elevado. Como disse Jesus “a Lei só foi dada a Moisés por causa do coração empedernido dos homens”. A Lei não é “necessária”, o ser humano vivia perfeitamente sem ela nos primórdios. Ela é provisória, se veste do seu caráter de transitoriedade e um dia dará lugar a verdadeira Lei: a da consciência em liberdade. A Lei se fez na ausência de princípios vitais. A Religião se fez na ausência de Fé, pois enquanto essa é a certeza de se estar em Deus em qualquer lugar, no religioso essa “certeza” só se dá quando ele se encontra em um lugar visível (Templo) com endereço fixo. O Estado se fez na ausência de Deus. Os Sistemas são criados na ausência de liberdade. As Nações foram geridas na ausência de segurança. É na ausência do bem que se cria o vácuo para o “mal”. Já dizia o nobre espírito de Agostinho de Hipona que o “mal” é na verdade a ausência do bem. Para ele existia o bem e a sua ausência. Na lógica Agostiniana há uma relevância sensacional quando pegamos o exemplo da luz. Só existe a luz, a escuridão não existe, ela é apenas ausência daquilo que definimos como luz e mera criação da linguagem humana. Será assim com o mal?

Essa breve ausência do bem que se fez por causa do nosso coração empedernido dará lugar a algo perfeito e absoluto. O espírito elevado de Jesus sabia viver acima do “bem e do mal”. Acima do “bem e do mal” tudo é luz, tudo é puro para os puros, tudo é licito, mas melhor é o que edifica, tudo é permitido para aqueles que não possuem manchas na consciência em liberdade que não é confundida com libertinagem. Vivemos na transitória passagem para algo perfeito. Como a letra de uma canção que diz: “vivemos esperando, dias melhores”.O mundo se contorce em dores e “males” logo prevendo o surgimento da utopia dos Profetas como a grávida em dores de parto a dar a luz a Vida. A transitoriedade desses “males” é algo que o fluxo da Vida como um rio vai levar um dia. A manifestação da Vida, a verdadeira e não essa ilusão em que vivemos, com um sopro dissipará o “mal temporário” que já-não-é para muitos e infelizmente continua sendo para outros tantos. Utopia? Apocalipse? Reino de Deus? Seja lá como chamam isso que guardo no meu espírito, só sei que isso está mais vivo em mim do que qualquer coisa que vejo movendo sobre a Terra.

Anderson Luiz

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