Além do óbvio


“O óbvio é aquilo que nunca é visto até que alguém o manifeste com simplicidade.” (Kahlil Gibran)

Hoje eu levantei cedo para poder participar da inauguração de uma escolinha de futebol de um amigo. Fiquei relembrando os tempos passados nas quadras e campinhos de areia na praça de frente minha casa. Tempo bom era aquele! Hoje minha visão não me permite jogar bola como gostaria e a idade também não me ajuda a correr como um menino. No meio de uma pequena torcida (não organizada graças a Deus), fiquei lembrando de meu avô materno, que enquanto vivia nesse mundo era um apaixonado por futebol. Quantas vezes viajei com ele e com ele torci nas beiradas de campo! Sua alegria era torcer para o meu tio, outras vezes para mim e me presentear todo o ano com uma bola de futebol. A lembrança me fez chorar por dentro! E tudo isso meu espírito reviveu enquanto eu estava sentado naquela arquibancada. Apenas tinha saído de casa para prestigiar um amigo e assistir algumas partidas e levei de brinde boas e más lembranças.

Depois me pus a pensar nas palavras de agradecimento feitas na inauguração e em especial em um discurso que lembrava do lado social do esporte, aquele que tenta afastar a garotada das drogas. Pensei comigo, “não é só futebol”, tem algo além disso e começei a refletir. A garotada com seus uniformes desfilando, tirando sarro uns dos outros e se preparando para o jogo. Lembranças boas de quem já tinha vivido aquilo! Começei a prestar atenção nos garotos e nos seus pais que se encontravam na arquibancada, dando-lhes incentivos, dicas de “técnicos” e torcendo para eles. Tinha algo no ar além de um simples esporte! Sei, o futebol é paixão nacional, em excesso pode ser alienante, mas trás a possibilidade de algo diferente e bom. O calor humano, a amizade, o prazer do trabalho em grupo, a satisfação no olhar do pai e da mãe, o incentivo na derrota, a risada espontânea, a recompensa do esforço e a esperança. A esperança é o que enche o coração de cada ser humano! Sem ela como se vivẹ. A realidade é tão dura e não há nada de mais paliativo para a dor do que a esperança.

Em cada um que se encontrava naquele campo de futebol, inclusive em mim, havia esperança no olhar. O futebol não é só um esporte no Brasil, é também fomentador da esperança do brasileiro! Os meninos alimentavam a esperança de um dia se tornarem os craques e famosos do futebol, ficarem ricos e famosos como os tais. Os pais na esperança de verem seus filhos se despontarem na vida e não desapontarem, como muitos mesmos devem sentir em relação aos filhos. Alguns na esperança de além de fazer o que gosta, ajudar na construção social sadia de uma geração que se diz perdida. Outros na esperança de se entreter, se divertir em um dia em que ficar em casa pode ser um “saco”. Esperança, esperança era o lema daquele ajuntamento, mesmo que ninguém ali em nenhum momento a pronunciava. Sua presença era quase paupável! Sei que daqui um tempo háverá inúmeras frustrações, sonhos esfacelados, projetos falidos em relação ao futebol, como o que aconteceu comigo. Também já sonhei em ser jogador de futebol, tanto sonhei que uma noite chutei a parede enquanto dormia e sonhava. Já me frustrei, mas valeu a pena! A esperança não é uma droga, ela é libertadora! Liberta o ser humano da tirania da opressão de uma vida “mal-sucedida”, vida bandida, miserável, injusta com quem só tem alegria aos finais de semana ao ver rolar uma bola. O futebol é também um meio de esperança! Qual a graça de correr atrás de uma “pelota”? Muita graça, muita esperança, o espírito de conjunto que arrebata da solidão, a chance de ser “mais” no campo, a oportunidade de mostrar-se e atrair a atenção dos pais, o desejo de conquistar o tão almejado “prêmio” que a vida cotidiana cobra de nós, a certeza de que naqueles minutos eu terei a alegria que eu não tenho em casa, a satisfação no coração de ver o pai e a mãe torcendo juntos e esquecendo das diferenças de casais e brigas de casa, o momento único de fugir da “patroa” e encontar os amigos para tomar aquela “cervejinha” que alivia do estresse que a opressão do trabalho trás etc. Era só para ser um futebol e aos meus olhos isso passou a ser o que menos interessa! Será assim em tudo o que é humano e se busca entreter? Já disseram uma vez que tudo o que o homem faz, inclusive na maldade, é para buscar sua própria felicidade. E não é que é? E eu achando que era um simples esporte!

Anderson Luiz

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