Sobre a igreja


“A igreja é o único lugar onde alguém fala comigo e não tenho de responder.” (Charles de Gaulle)

“As pessoas vão a igreja pelos mesmos motivos que vão à taverna: para estupefazerem-se, para esquecerem-se de suas misérias, para imaginarem-se, de algum modo, livres e felizes.” (Bakunin)

A palavra Igreja vem do grego Ekklésia, que em Atenas era um lugar de ajuntamento em lugares públicos (geralmente uma praça) para deliberação de assuntos políticos, de negócios e outros que envolviam interesses comuns. Era na Ekklésia que se dava as discussões e debates públicos, o conhecimento do interesse e da vida do outro, tecendo a sociabilidade grega longe da vida privada. Assembleia política, ajuntamento em praça pública, congregação com interesses comuns, era como os gregos entendiam o que seria uma igreja. Se formos fazer uma comparação entre o que significava igreja para os gregos e o que significa hoje para os religiosos, ficaríamos espantados. Nos dias de hoje a igreja perdeu o seu maior sentido de ser: um lugar de sociabilidade.

Na era pós-moderna em que vivemos, a vida é corrida demais, os afazeres diários nos estressam, o cotidiano no trabalho é massante e cansativo e a vida privada (o lar) precisa estar em comunhão com a vida pública. É por isso que aos finais de semana os bares ficam cheios, os restaurantes lotados, os clubes recebem milhares… todos buscando a sociabilidade que a Ekklésia no sentido grego proporciona. Nessas “assembleias” humanas trocamos afetos, aconselhamos, recebemos conselhos, ouvimos e somos ouvidos, rimos e choramos, lembramos do passado e deixamos o outro conhecer o nosso desejo de futuro, criamos vínculos profundos e nos solidarizamos e socializamos com outros iguais a nós mesmos e até diferentes. Esse é o sentido de igreja! Comunhão, afeto, conhecimento verdadeiro do outro, amizade, faz parte desse ajuntamento fraternal. E ainda que não se encontre em determinados ambientes essas coisas, a maioria de nós quando quer socializar, sai procurando elas. Todo ser humano que se preze sente falta desses vínculos!

Como tudo que o homem cria se corrompe com o tempo, a igreja foi corrompida em seu significado original. A igreja deixou de ser um lugar sociável e passou a ser um lugar indesejável e por vezes de sentido não prazeroso para quem frequenta, mas obrigatório. Em primeiro lugar, dizem que se deve ir a igreja para “adorar” a Deus. Esse é o pior dos enganos! Deus se adora enquanto se vive e o verdadeiro significado de ir a igreja deveria ser mesmo a construção de relacionamentos humanos, a fraternidade, o chamado ao aprendizado do amor e comunhão simples. Na igreja religiosa, chega-se na hora marcada, senta-se geralmente no mesmo lugar, troca-se cumprimentos e olhares com conhecidos, ouve-se uma “palavra” para vida, encerra-se o “culto” e quase todos saem apressados para os seus lares. Cadê a sociabilidade? Os bares são muito mais interessantes! Em segundo lugar, na igreja religiosa, não se vê preocupação verdadeira com a vida alheia. Todos estão programados a só ouvir, pois o que prevalece é a “lei do microfone”. Quem tem ele na mão fala o que quer e quem não tem, que entre mudo e saia calado. A comunicação que é a maior “benção” da vida é restrita a um líder e a sociabilidade deixa de existir, quando deixa de existir o diálogo. E dizem que a ditadura já passou! Por último, a igreja religiosa que foi criada aos moldes do Império Romano, passou a ser um lugar de acomodação, alienação e domesticação da vida humana. Quem pensa diferente é logo rejeitado! Quem tem pensamento crítico não é bem-vindo! Quem não concorda com o que a maioria concorda é execrado! Todos precisam ser iguais! Afinal, em toda ditadura é “ame-o ou deixe-o”. O ser humano precisa aprender a viver com a diferença, com as discordâncias, com diversas formas de pensar a vida, e ai sim o princípio grego de Ekklésia será prazeroso. Só se cresce com a contradição! Conhecendo a cultura grega como conhecia Jesus, foi nesse sentido que ele disse que sobre a revelação de Pedro de que ele era o Cristo, ele edificaria a sua Igreja (Mt 16:13 à 19). A sua Ekklésia (igreja) teria o mesmo significado da Ekklésia dos gregos, edificada em torno da sociabilidade, amor e fraternidade de seus seguidores e o único diferencial que certamente faria toda a diferença, era que seus seguidores se reuniriam sabendo de que ele era o Cristo, o Filho de Deus. Sua Igreja estaria reunida junto aos seus semelhantes em Fé e também juntos aos diferentes e alheios a essa informação. Essa boa nova seria anunciada na sociabilidade humana de qualquer lugar de “fome” e “sede” humana por fraternidade verdadeira. E é por isso que eu prefiro os “bares” da vida do que uma confraria religiosa.

Anderson Luiz

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