O Jesus intragável


“Disputavam, pois, os judeus entre si, dizendo: Como pode este dar-nos a comer a sua própria carne?

Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo: se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tendes vida em vós mesmos.” (Jo 6:52,53)

“Muitos dos seus discípulos, tendo ouvido tais palavras, disseram: Duro é este discurso, quem o pode ouvir?” (Jo 6:60)

“À vista disso, muitos dos seus discípulos o abandonaram e já não andavam com ele.

Então, perguntou Jesus aos doze (discípulos): Porventura, quereis também vós outros retirar-vos?” (Jo 6:66,67)

Para muitas pessoas Jesus foi e continua a ser objeto de controvérsias. Em sua época ele foi considerado intragável por alguns. Nem sempre era fácil “engolir” o seu discurso, principalmente quando esse discurso “escandalizava” aqueles que não entendiam ou não queriam entender a sua mensagem. Quando sua mensagem recheada de hipérbole era interpretada de maneira literal, era difícil de se “engolir” e ficava “entalada” na garganta de muitos. Não era fácil aceitar o fato de ter que “engolir um homem” para viver a verdadeira Vida. Isso é compreensível! Jesus se tornou intragável para alguns depois desse discurso “canibal”. O canibalismo que entre os antropólogos ficou conhecido como antropofagia, foi o hábito cultural de diversas tribos indígenas no Brasil e no mundo. Em algumas tribos era comum comer a carne e beber o sangue de seus inimigos. Havia entre as tribos em disputa, a crença de que vencida a guerra, para se obter as qualidades do adversário, era preciso comer a sua carne. Algo cultural e muito menos se encontra ai uma questão de “monstruosidade! O inimigo corajoso morto em combate deixava corajoso aquele que se alimentava de sua carne. Essa era a lógica! Nesse sentido, entende-se: “se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tendes vida em vós mesmos?” Talvez seja esse o sentido, já que o Mestre mesmo disse um dia ser a Vida. (Jo 14:06)

A questão era que Jesus nunca foi um canibal e nem era a favor da antropofagia. Muito menos quando essa antropofagia colocava o seu corpo em risco. Apesar de ser “duro” as vezes ao discursar, sua mensagem só era entendida se escutada com “ouvidos espirituais” (se é que isso existe). Jesus propunha uma “antropofagia espiritual”! Sua carne era verdadeira comida e seu sangue verdadeira bebida, a ponto de não causar indigestão e náuseas em quem entendia o sentido espiritual de suas palavras. Muitos o achavam extremamente intragável! Imagino alguns dizendo: aquele cara não me “desce”, eu não “engulo” essa baboseira. Dos que andavam com ele, inúmeros os abandonaram por suas palavras. E ele de modo algum voltou atrás no que disse e nem quis convencer ninguém de suas palavras. Falou e continuou assumindo, com o risco do abandono, a sua fala. Discurso duro de se ouvir, porém acrisolador! Como fogo separando as impurezas de um metal precioso. Provando até os que ficaram, para saber se ainda o suportariam: “quereis também vós outros retirar-vos?” Jesus intragável! Jesus insuportável! Muitos o achavam e ainda o acham presunçoso demais! Como suportar o discurso duro desse cara? Mas afinal, esse não era o Jesus do amor, da doçura, compaixão? Será a verdade insuportável demais para se ouvir? Será a sinceridade (sem cera) intragável, indigesta?

Em diversos momentos e passagens o Mestre pôs a prova os que o seguiam. Mesmo no seu “duro” discurso, suas palavras eram cheias de amor. Era por causa do amor que ele dizia “algumas verdades” e isso doía as vezes em alguns a ponto de o abandonarem e já não o suportarem mais. E isso não era um problema para ele. Nunca foi! Jesus não esperava a aceitação dos outros. Ele não dependia disso. Se fosse depender seria um frustrado! Ele sabia do que estava falando e era extremamente seguro de si. Quem não estava pronto para o ouvir e entender a sua mensagem, não estava pronto para continuar o seguindo. Essa era a questão! Continua sendo? Amargurados com a dureza, poderiam até continuar o admirando ou até mesmo odiando, mas que fosse seguir os seus próprios caminhos. No caminho da vida, há a necessidade de falar e andar com quem tem a mesma linguagem, compartilha do mesmo espírito, segue as mesmas passadas e se submete a uma “antropofagia espiritual”. E ainda que sua carne esteja crua e seu sangue coagulado, eu prefiro mastigá-lo do que “engolir sapo” por ai.

Anderson Luiz

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