Milhares em um


“A minha consciência tem milhares de vozes, / E cada voz traz-me milhares de histórias.” (William Shakespeare)

“Os fenômenos humanos são biológicos em suas raízes, sociais em seus fins e mentais em seus meios. (Jean Piaget)

Eu sou o pai de família desempregado que não pode atender o pedido de Natal de seu filho, presenteando-o com a bicicleta que seu amiguinho de escola ganhou.

Eu sou a mãe que observa os primeiros passos de um filho “desenganado” pelos médicos, e que hoje exibe um sorriso mais brilhante que o sol.

Eu sou a criança que na escola é isolada e que se tornou objeto de piada dos colegas de sala de aula por estar fora dos “padrões de normalidade” que a sociedade erigiu e as crianças reproduzem.

Eu sou o velho que tem alegria em contar suas experiências aos mais jovens e dar conselhos bons aos seus netos toda vez que esses estão em seu colo.

Eu sou a adolescente estuprada todos os dias pela a ideia angustiante e martirizante de obter e exibir um “corpo perfeito”.

Eu sou o garoto que perdeu parte da juventude estudando para passar em um vestibular que lhe deu acesso ao curso que sempre desejou fazer.

Eu sou a prostituta calada em um ato sexual que lhe lhe é repugnante e nojento, mas que se suporta na intenção de sustentar a sua casa.

Eu sou o casal que se ama, e que pela primeira vez vai experimentar esse amor em uma cama aconchegante em um quarto de motel.

Eu sou o presidiário arrependido, de cabeça baixa em sua cela, depois de ser abandonado pela esposa que tanto amava.

Eu sou a vítima de sequestro que se libertou de seus algozes e agora abraça debaixo de um banho de lágrimas, os seus familiares.

Eu sou o menino esperando um transplante de coração, na esperança de poder um dia, jogar bola junto com os amigos na praça de seu bairro.

Eu sou a senhora que veio doar sangue no Hospital, procedimento esse que já está acostumada fazer há anos.

Eu sou a empregada doméstica que sobe cansada as escadarias da favela levando o pão e o leite para as suas crianças em um dia de tiroteio intenso e ocupação policial.

Eu sou o filho do empresário que usa boa parte do dinheiro que ganha para ajudar em causas sociais e alimentar os mendigos do seu bairro.

Eu sou o chinês que precisa trabalhar muito por um salário baixo, clamando em seu espírito por mudança e reconhecimento de seu esforço e sofrimento.

Eu sou o norte-americano que sente vergonha da política de seu país em relação ao mundo e deseja, se tivesse essa chance, pedir perdão pelos atos de seus presidentes.

Eu sou o palestino deportado para longe de seus familiares por estar lutando em favor de suas terras que foram tomadas.

Eu sou o militar israelense que trata com respeito e carinho em seu território, o muçulmano que viajou de muito longe para visitar a “Terra santa”.

Eu sou milhares em um! Todos esses milhares em um mesmo e único espírito humano (ou divino?)! Arrependidos, tristes, felizes, aliviados, exaustos, injustiçados, esperançosos, cheio de amor e compaixão. Humanos, muito humanos! Somos milhares e somos um! Eu sou um, mesmo sendo muitos! Unidos pelo mesmo sentimento, dor, sonho, desejo de justiça e esperança. Somos milhares e somos o mesmo ser: humano.

Anderson Luiz

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