Jesus e as desgraças


“Naquela mesma ocasião, chegando alguns, falavam a Jesus a respeito dos galileus cujo sangue Pilatos misturara com os sacrifícios que os mesmos realizavam.

Ele, porém, lhes disse: Pensais que esses galileus eram mais pecadores do que todos os outros galileus, por terem padecido estas coisas?

Não eram eu vo-lo afirmo; se, porém, não vos arrependerdes, todos igualmente perecereis.

Ou cuidais que aqueles dezoito sobre os quais desabou a torre de Siloé e os matou eram mais culpados que todos os outros habitantes de Jerusalém?

Não eram, eu vo-lo afirmo; mas, se não vos arrependerdes, todos igualmente perecereis.” (Lc 13:1- 5)

Entre nós, seres humanos, existe uma mentira milenar que se apoderou de toda a cultura da terra: a mentira de que toda “desgraça” tem sua explicação racional. Esse tipo de julgamento moral em relação ao mal que se sucedeu ao próximo, como se fosse “merecido” por conta de algum “erro”, “pecado” ou “culpa”, é tão desgraçado quanto aquilo que o ser humano chama de “desgraça”. Jesus veio para extirpar essa mentira cultural milenar! Seus contemporâneos estavam cheios de explicações “morais” em relação a uma provável matança ordenada por Pilatos contra os galileus. Pensavam que seria fruto do pecado “desses”. Cogitavam e comentavam também entre eles sobre o “motivo” da desgraça que acontecera a dezoito pessoas depois de um desabamento de uma torre. Achavam que os mortos nesse acidente tinham sofrido alguma “penalidade” por serem “culpados” de alguma coisa que possivelmente atraiu a calamidade. Viviam o surto do “segredo da lei da atração”, a mentira mais mentirosa e vendida em forma de livro nos nossos dias. Jesus, que sempre desconstruía as mentiras dos homens, nivela todos os seres humanos na mesma condição de pecadores, portanto, carecedores da graça de Deus. A condição de todo homem para Jesus é miserável enquanto este não se arrepender e reconhecer que não existe “mérito” nenhum em sua condição existencial. E isso não se explica racionalmente, é mistério divino!

O homem sempre buscou princípios e causas para explicar a condição humana. Era preciso explicar os infortúnios, as intempéries, as desgraças e doenças… e nada mais racional do que encontrar o motivo dessas infelicidades em uma causa. Foi o filósofo Aristóteles quem formulou uma teoria de “causa e efeito”. Estudando o que hoje chamamos de Física, Aristóteles viu no Universo razões que explicavam diversos fins ou efeitos que estariam ligados a uma causa primeira. O problema todo surgiu quando quiseram aplicar o mesmo método ao ser humano, esse ser criado misteriosamente de uma maneira que na maioria das vezes, a teoria de “causa e efeito” é impotente e inexplicável. Como explicar doenças cancerígenas de crianças puras? O homem sugere o “carma” que ele carrega de uma vida passada. Como explicar a destruição causada por uma chuva? O homem ingênuo diz que foi o “peso” da mão de Deus por causa do “pecado” dos habitantes. Como explicar a desgraça de um acidente? Dizem que é por que “zombaram” de Deus e por aí vai… nessa mentira, até o ser humano mais honesto se enrola. Ele se sente culpado, procura erros, fica paranóico, se rebela, aceita um mal que nunca cometeu, carregando o “carma” do mentiroso e pai da mentira, chamado diabo acusador. Como os amigos de Jó, o ser humano que acha que possui um “crédito divino”, tenta encontrar sempre algum pecado oculto no outro, para explicar racionalmente as catástrofes que lhe acometem. Isso é uma desgraça! Sem dúvida a pior desgraça da terra! E o que seria para esses “desgraça”, na maioria das vezes é graça divina na vida do próximo. Uma oportunidade ímpar de Deus revelar ao homem de que ele não é melhor do que ninguém. É lógico que não podemos descartar que dependendo das escolhas humanas, o fim é previsível! Por exemplo, quem brinca com a causa fogo, certamente sentirá o efeito do calor do fogo e se queimará! Mas essa teoria da “causa e efeito” entre os humanos não é uma regra e nem pode virar uma doutrina como se vê. Nem tudo tem uma explicação lógica! Nem tudo que acontece tem um motivo racional! Esse é o mistério! E o mistério é a graça de Deus que “faz chover e ter sol sobre justos e injustos”. Mais é preciso fé para aceitar o fato, pois sem o reconhecimento da nossa condição miserável, é impossível agradar a Deus! Por que sem fé achamos que “somos merecedores” de uma condição boa na terra, seguindo regras morais que não possuem nenhum poder contra as desgraças. Catástrofes acontecem com ricos e pobres, religiosos e ateus, santos e profanos, com quem ora e jejua e com quem faz feitiços para destruir vidas e famílias. A diferença em relação aos resultados causados por quem passa por uma “desgraça” está na fé de quem acha normal o ocorrido e não fica buscando “justificativas meritórias”. Em Jesus não existe “meritocracia”, “carma”, “homem bom”… só existe uma condição humana existencial: a do nivelamento que faz “todos” os homens dependentes da mesma graça que faz os nossos órgãos funcionarem enquanto não temos nenhum controle sobre o funcionamento deles.

Anderson Luiz

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