Filhos da barbárie


“Uma ira desmedida acaba em loucura; por isso, evita a ira, para conservares não apenas o domínio de ti mesmo, mas também a tua própria saúde.” (Sêneca)
“O homem é o lobo do homem”. (Thomas Hobbes)

Os bárbaros ficaram famosos por serem o divisor de águas de uma era em que o Império Romano dominava. Eles “destruíram” o poder político desse Império e “iniciaram” uma era nova conhecida na História como “Idade Média”. Ostrogodos, visigodos, vândalos, alanos, hunos, francos e diversas tribos e povos foram identificados pelos que se achavam “civilizados”, como “bárbaros”. Suas maneiras de viver, diferente em muitos aspectos dos povos ditos “civilizados”, assustava, causava medo e inquietação. Taxados como insubordinados, “sem leis”, sanguinários, sujos, esses “bárbaros” de costumes primitivos e tão humanos, deixaram suas marcas no espírito coletivo dessa geração “pós-moderna-científica-tecnológica-informatizada-civilizada” atual. Somos seus filhos desde sempre! Filhos da ira, da barbárie, da violência cega que destrói sem julgamento.
O surto coletivo da violência é contagiante! Os fenômenos de massa, essa coletividade que surta na sede de fazer justiça com as próprias mãos, não é um fenômeno antigo (primitivo, tribal etc.), da “Idade Média” e muito menos um fenômeno novo (linchamentos por exemplo). É um fenômeno humano! E isso é preciso entender! Era assim nas tradições judaicas (apedrejamento de “pecadores” como parte das leis da Torah), na sentença romana (crucificação), na “Idade Média” cristã (tortura e fogueira para os hereges), nas tradições “pagãs” (amarrar uma pedra na perna de um acusado e jogá-lo ao mar). É um fenômeno atual e moderno, como os Pogrons (na Rússia), os campos de concentração (na Alemanha Nazista), o corte de cabeças na Jihad (guerra santa dos radicais islâmicos), estupros coletivos (na Índia e nos presídios brasileiros) e os linchamentos que temos visto (Brasil). Primitivos, bárbaros, vândalos, modernos, civilizados, todos filhos da ira, “selvagens” em suas naturezas, violentos em seus julgamentos. Somos assim! Não há nada de novo nisso! Quem nunca não teve vontade de fazer justiça com suas próprias mãos? Que atire a primeira pedra! Quem nunca foi consumido pela ira cega de morte ao ver uma injustiça? Somos humanos, essa é a nossa condição! “Olho por olho, dente por dente”. O espírito coletivo da morte e da ira encontra em nossos corações esse “desejo primitivo e moderno” de sangue por sangue. O surto humano do “hooliganismo” nas torcidas de futebol,  da violência organizada e instituída para premiar os mais brutos (MMA), dos “justiceiros” e dos que filmam linchamentos (esses são os mais sanguinolentos que bebem o sangue a cada sede de “curtidas” e compartilhamentos” na internet), é uma “condição” maldita.
O que fazer então se essa é nossa “condição”? Se estamos perdidos, se isso é um fenômeno humano, se nossa “natureza” é assim… não há solução? Se somos filhos da ira, da morte, desejamos sangue como vampiros modernos (e a experiência humana não deixa mentir), filhos do julgamento do que seja “bem e mal”, “justiceiros” cegos que matam inocentes, o que fazer? A primeira coisa a fazer é aceitar a nossa condição de cegos, violentos (em suas mais variadas formas), bárbaros, pecadores, seja lá como se quer definir essa condição. A segunda é se saber nivelado a todos, nem herói e nem vilão, nem melhor e nem pior a ninguém, todos carregando as mesmas projeções das nossas sombras, carregando seus próprios “demônios”. A terceira é se abrir para possibilidade do arrependimento, enxergando-se e questionando se não há algo além disso tudo. Nesse sentido eu entendo (aqui eu faço uso da minha Fé) que é preciso “nascer de novo”, se abrir para a possibilidade do amor, da misericórdia, da compreensão de que não somos juízes de ninguém, estúpidos do que seja “bem e mal”, de que existe algo além, de que é preciso todos os dias transcender nossa “condição” e de que para mudar isso, não há nada a fazer, a não ser crer que tudo que não podemos fazer (humanamente falando), já foi feito e pago com o sangue do mais inocente de todos os não-inocentes.

Anderson Luiz

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