Sofrimento como espetáculo


“Posso partilhar tudo, menos o sofrimento.” (Oscar Wilde)

A “espetacularização” do sofrimento alheio é uma desgraça que vende! A desgraça alheia dá ibope! E sempre foi assim! Desde a política romana do “pão e circo” a população se contentava com o espetáculo de brutalidades e mortes nas arenas do Coliseu. Hoje, o sensacionalismo midiático do “quanto pior, melhor” arrebata uma multidão de espectadores. O sofrimento alheio na televisão é um espetáculo digno de pena e despertar das emoções mais baratas. A pobreza e a miséria humana servem como motivo de chacota, piada e ironias que criminalizam e envergonham o pobre e sua condição social, seja nas novelas ou nos programas de “humor”. A religião e principalmente o fenômeno neopentecostal arrecadam dinheiro usando como pano de fundo as doenças de seus fiéis. É um deus-nos-acuda! Quanto mais miserável, sofrida e desgraçada a vida de alguém, maior é a chance de se tocar a trombeta da hipocrisia que diz “ajudar”… ajudar a dar ibope e avançar nos pontos sobre os canais concorrentes em dia de domingo.

O sofrimento alheio atrai nossa atenção, isso é inegável! Talvez por conta de alguma identificação ou por algum sentimento de pena que nos é familiar. A dor de uma família que perdeu um ente de forma brutal, o drama de um filho perdido nas drogas, a pobreza extrema de uma mãe que cuida de cinco filhos, tudo isso chama nossa atenção e não só a nossa, mas a dos oportunistas de plantão. Não à toa, os programas televisivos nos cercam com sensacionalismo. A razão do telespectador é descartável quando se trata de “prender” o público! Um apelo ao emocional humano e sua sensibilidade a dor alheia, é uma escolha racional feita por gente que sabe que apelar para espetacularização do sofrimento, é um caminho que dá lucro. Daí tudo vira um espetáculo! Até a fé se torna um show: o “show da fé”. Gente chorando, gente implorando, gente fazendo o que puder para receber a cura que livra do sofrimento. Gente cantando, gente pagando o maior mico, gente se humilhando em troca de favores que nunca serão dados de graça e de coração. Perdem a vergonha, se deixam ridicularizar, pagam os piores micos e pagam caro com suas almas em troca do alívio para suas dores. E isso é sensacional para os sensacionalistas! É espetacular para quem monta o espetáculo! É fantástico! No meio desse oportunismo todo surge gente bizarra capaz de fazer bizarrices de causar inveja ao diabo. Vide os novos líderes religiosos e suas bizarrices!

E por que cada vez mais gente se deixa passar por isso diante da vista de milhares de espectadores? É que o sofrimento enfraquece, o sofrimento cega diante do direito de escolha, ele acaba por abrir uma brecha para o oportunismo de gente má que não se interessa pelo ser humano que sofre, mas pelo caso que rende grana. É o farisaísmo moderno! O tocar de trombetas que não se preocupa com quem se ajuda, mas se preocupa com as “visualizações” que aquela ajuda proporcionará. É preciso sabedoria no sofrimento! É preciso saber que ainda enfraquecido por ele, ninguém tem o direito de nos comprar e nos usar! É preciso ter a consciência de quem se é, e quando se sabe quem se é, não se deixar-de-ser e se anular para aceitar uma vontade que se apresenta como superior. Há sempre outra escolha sim, mesmo no sofrimento! Nosso sofrimento humano, genuíno, não merece ser espetáculo nas mãos de gente má. Ele merece respeito!

Anderson Luiz

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