A negação do ócio


Por mais que se esforcem, por mais que queiram, semelhantes homens, atarefados dia e noite, nos escritórios, nas repartições, nos tribunais, nos cartórios, na indústria política, não podem ter o repouso de espírito, o ócio mental necessário à contemplação desinteressada e à meditação carinhosa das altas coisas. Limitam-se a pousar sobre elas um olhar ligeiro e apressado; e a preocupação de manter os empregos e fazer render os cartórios, tirar-lhes-á o sossego de espírito para apreciar as grandes manifestações da inteligência humana e da natureza.

Pode ser definida a feição geral da sociedade da Bruzundanga com a palavra – medíocre. (Lima Barreto em “Os Bruzundangas”),

Lima Barreto em seu livro “Os Bruzundangas” descreve, usando de sua ironia fina, uma sociedade fictícia de nome “Bruzundanga”, a qual é uma sátira do Brasil da “República Velha”. Falando sobre a sociedade da Bruzundanga, Lima Barreto a descreve como arrivista, ou seja, uma sociedade que sempre está buscando os seus próprios interesses e que usa qualquer recurso para se dar bem. Segundo Lima Barreto, os Bruzundangas “vivem tiranizados pela paixão de ganhar dinheiro” e negam o ócio por conta dos seus interesses. Vivem para os seus negócios!

A palavra negócio significa “negação do ócio”! No mundo dos “negócios”, tudo é muito “ligeiro e apressado” e não há lugar para “contemplação desinteressada”, reflexão, “meditação carinhosa”, “sossego de espírito” e “apreciação das grandes manifestações da inteligência humana e da natureza”. O “ócio mental” necessário a reflexão profunda das coisas, das questões humanas e das questões da sociedade, já era condenado na Bruzundanga de Lima Barreto… imagina na Bruzundanga de hoje. Ócio que virou sinônimo de “vagabundagem”, de gente à toa! Contemplar a natureza, pensar a vida, gastar tempo com lazer, com o prazer e promover boas discussões sobre a humanidade e a sociedade é coisa de gente que não tem nada pra fazer.

Na Grécia antiga os filósofos, pensadores que amavam o ócio e refletiam sobre todas as questões que necessitavam reflexão, eram tidos como pessoas importantes, de valor… na Bruzundanga é o contrário. Na Bruzundanga, pouco valor se dá a filosofia e a sociologia nas escolas. Na Bruzundanga, os professores, os de pensamento crítico como os filósofos de outrora, são condenados e taxados pela sociedade como “doutrinadores”. “O papel deles deve ser o de formar nossos filhos para os negócios”, dizem os pais da república dos Bruzundangas. São medíocres grande parte da sociedade da atual Bruzundanga! Perseguem o conhecimento nas universidades, desejam extinguir a cultura e qualquer incentivo a ela, perseguem artistas, censuram artes em museus, condenam livres pensadores e tudo isso para impor a mediocridade de seus negócios mesquinhos, de seus interesses vis frutos de suas vidas apressadas e sem reflexão. Pobre país da república dos Bruzundangas! Pobre Brasil!

Anderson Luiz

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